Introdução ao estudo do Parentesco
Para o estudo do parentesco têm como relações de consanguinidade e relações de afinidade, tais relações encontram uma tradução nos sistemas de designação mútua (as terminologias ou nomenclatura do parentesco); nas regras de filiação que determinam a qualidade dos indivíduos como membros de um grupo e os seus direitos e deveres no interior do grupo, nas regras de aliança que orientam positiva ou negativamente a escolha do cônjuge, nas regras de transmissão dos elementos que constituem a identidade de cada um; e nas regras de residência, ou seja, nos tipos de agrupamentos sociais nos quais os indivíduos estão filiados (HERITIER, 1989, p.29). E em Moçambique temos três categorias de laços de consanguinidade a saber:
- Laço de parentesco por consanguinidade é a tradução do princípio de filiação, que agrupa entre si as pessoas que partilham o mesmo património genético (pais, filhos, avós, irmãos);
- Laço de parentesco por afinidade; traduz a relação de parentesco estabelecida entre dois grupos sociais distintos, através de casamento de um homem com uma mulher, sendo um de cada grupo;
- Laço de parentesco fictício essa categoria é usada para criar ligações entre pessoas que não sejam nem afins nem consanguíneas (inclui a adoção e o compadrio e o parentesco ritual).
Segundo Maria Helena Diniz (2002, p.367), “Parentesco é a relação vinculatória existente não só entre pessoas que descendem uma das outras ou de um mesmo troco comum, mas também entre cônjuges e os parentes do outro e entre adoptante e adotado”.
Tipos de parentesco
São três tipos de parentesco: primário, secundário e terciário.
Primário
Aplicado aos que pertencem à mesma família nuclear; pai, mãe, irmãos de Ego (família de orientação), marido, esposa e filhos;
Secundário
Partido do Ego, refere-se ao pai do pai, irmão da mãe (avós); irmãos do pai, irmãos da mãe;
Terciário (Parentes terciários)
Tomando o ego como referencia, seriam: bisavó, esposas dos tios e outros parentes mais remotos (Marconi e Presotto, 2006:104 a 105).
O sistema de parentesco segundo Mordock refere-se a um sistema estrutural de relações, no qual os indivíduos encontram-se unidos entre si por um complexo interligado de laços ramificados. Para Rivers, o sistema de parentesco consiste no reconhecimento social de laços biológicos.
As culturas, em geral, possuem uma terminologia própria que indica as diversas relações de parentesco. A compreensão da maioria da sociedade, passadas ou presentes, requerem o
conhecimento do sistema parentesco pelo antropólogo. Ele é importante porque:
a) Fornece um modo de transmitir status e propriedades de uma geração a outra;
b) Estabelece e mantém grupos sociais efectivos.
Partindo sempre de um indivíduo de referência, a quem os antropólogos chamam Ego, é possível identificar todos os seus parentes. Ego é a figura que representa o indivíduo de referência a partir do qual se faz o estudo de um grupo de parentesco, é a partir de um ego que se estabelecem tanto as relações de afinidade como as de filiação e descendência.
Nomenclatura de parentesco (terminologia de parentesco)
É o sistema de denominações das posições relativas aos laços de sangue e de afinidade. Exemplos de nomenclaturas de parentesco: pai, mãe, irmão, primo, esposa, cunhado, sogra, enteado, filho, neto, sobrinha.
Existe dois tipos de nomenclatura de parentesco, a saber: Nomenclatura de parentesco descritivo e nomenclatura de parentesco classificatório.
Nomenclatura de parentesco descritivo:
É aquela em que se usa um termo diferente para designar a cada um dos parentes. Por exemplo: papá (pai biológico), mamã (mãe biológica), mano (irmão biológica, mas velho).
Nomenclatura de Parentesco Classificatório
é aquela em que se emprega indistintamente o mesmo termo para designar a um grupo de pessoas com quem si tem um laco de parentesco. Por exemplo, quando se aplica o termo mama para designar à mãe biológica, à irmã de mãe, ou à madrasta. Também estamos perante a nomenclatura de parentesco classificatória quando se trata como irmão, ao próprio irmão biológico, ao primo ou ao filho de uma madrasta.
Características do Parentesco
O parentesco caracteriza-se fundamentalmente por: sistema de designação mútua, sistema de filiação, sistema de aliança, sistema de residência e sistema de atitudes.
O sistema de designação mútua:
É o sistema de denominação das posições relativas aos laços de descendência e de afinidade. É também designada por terminologia de parentesco. Por outras palavras, o sistema de designação mútua consiste no conjunto dos termos que numa dada cultura são utilizados para tratar diretamente e referir os indivíduos com os quais se tem uma relação de parentesco (exemplo: pai, mãe, tio, irmão, sogra, cunhado, tia, nora).
Sistema de filiação ou (descendência)
Descendência é o termo geral que designa a ligação social entre ancestrais e descendentes. Alguns antropólogos aplicam o termo descendência apenas para as relações que se estendem por mais de duas gerações (netos e avos), e usam o termo filiação para designar relações dentro da família nuclear (pais e filhos).
Na maioria dos contextos culturais conhecidos na terra as pessoas traçam a sua descendência ou filiação a partir de dois princípios ou sistemas: unilinear e cognático (ou não linear). A descendência unilinear reconhece apenas uma linha de antepassados, do lado masculino ou do lado feminino. Ela ocorre de duas formas: patrilinear, quando segue a linha masculina, e matrilinear, quando segue a linha feminina. A forma mais comum é a patrilinear.
Na descendência cognática são considerados de iguais modos os dois lados, materno e paterno, e ocorrem em quatro formas: bilinear, paralela, a bilinear e bilateral.
Sistema de aliança:
O matrimónio ou casamento é um tipo de aliança que caracteriza o parentesco. O casamento é um universal cultural e, segundo alguns antropólogos, pode ter formado a base de todas as organizações sociais humanas.
Sistema de residência
Este diz respeito ao padrão de residência adotado pelos indivíduos após o casamento. O referido padrão é determinado por uma série de regras, as regras de residência pós-casamento. A importância das regras de residências foi demonstrada por Negrão (2003, p.232), para quem “a escolha do local do domicílio conjugal não é um simples problema de supremacia psicológica sobre aquele que se muda; é o local do domicílio que determina o local do casamento dos filhos (dentro ou fora) e, como tal, a transmissão dos direitos de propriedade e de autoridade, podendo variar: de pai para filho; de mãe para a filha; e de irmão para o filho da irmã”.
O termo residência aqui empregue corresponde ao termo quintal ou muti, comummente utilizado pelos investigadores moçambicanos. Assim, segundo Negrão “a muti é a mais pequena unidade espacial de habitação, produção e consumo da família rural. É composta por um conjunto interligado de elementos como limites, casas, cozinhas, curais, sombras, locais sagrada casa de banho e espaços de acesso à água, à lenha e demais recursos”.
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